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  INFORME PHORTE - ANO 11 Nº24 - OUTUBRO A MARÇO - 2008/2009


MATÉRIAS
 
  • MARKETING PESSOAL – UMA AVALIAÇÃO EM PROL DA ATUALIZAÇÃO PROFISSIONAL
  • OBESIDADE INFANTIL - UM TRABALHO QUE EM CONJUNTO GERA BONS RESULTADOS
  • ORDEM DOS EXERCÍCIOS
  • PESQUISA GENÉTICA NO ESPORTE E O CONFLITO SUSCITADO PELOS ATLETAS GENETICAMENTE MODIFICADOS
  • TREINAMENTO FUNCIONAL

    OBESIDADE INFANTIL - UM TRABALHO QUE EM CONJUNTO GERA BONS RESULTADOS



    Francisco Navarro, Vanessa Fernandes Coutinho e Tatiane Vanessa de Oliveira


    Uma Visão do Educador Físico

     

    Obesidade Infantil

     

    O aparecimento da obesidade pode ser em qualquer época de vida, mas é mais freqüente no primeiro ano de idade, entre 5 e 6 anos e na adolescência.

                O número de crianças obesas cresce em decorrência de uma associação de mudanças no estilo de vida (como sedentarismo, maior tempo passado por elas em frente à TV e menor tempo brincando ao ar livre, em razão da falta de segurança) e nos hábitos alimentares (maior consumo de alimentos ricos em gordura, carboidratos de alto índice glicêmico e calóricos - por exemplo, fast–food -, além do aumento do tamanho das porções).

    A obesidade é considerada um grave problema de saúde pública. Nos países desenvolvidos, a obesidade infantil atinge proporções epidêmicas, e começa a substituir, em termos de problemas de saúde, a desnutrição e as doenças infecciosas.

    A prevenção, redução ou tratamento da obesidade são medidas necessárias, pois a prevalência da obesidade infantil gera fatores de risco para desenvolvimento de outras doenças crônicas. Além disso, a obesidade apresenta efeitos médicos e psicossociais importantes. 

    Nas sociedades industrializadas, observa-se a obesidade como uma desordem crônica, mais comum em crianças e adolescentes. Nos países desenvolvidos, nota-se um aumento da prevalência da obesidade nestes dois grupos, mais notável que o de doenças alérgicas.

    A criança obesa tem uma probabilidade maior de se tornar um adulto obeso. A Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere que sejam tomadas ações imediatas de saúde pública em relação à obesidade, semelhantes àquelas existentes para desnutrição e doenças infecciosas, já que se estima que a obesidade infantil atinja 21,9 milhões de crianças, sendo mais prevalente nas sociedades desenvolvidas do que naquelas em desenvolvimento.

    A etiologia da obesidade reflete em vários fatores como: genética, cultura, economia, emoções e comportamento, sendo que atuam em diferentes combinações nos indivíduos obesos. Logo, a obesidade torna-se complexa em razão da etiologia múltipla, correlatos comportamentais, efeitos psicossociais e conseqüências médicas.

    Com relação à obesidade infantil, características ambientais ou sociais dos indivíduos determinam fatores de risco. Na vivência familiar, a obesidade pode levar ao excesso da ingestão alimentar, sedentarismo, relacionamento intrafamiliar desestruturado, desmame precoce, substituição de refeições por lanches, relações psicoafetivas alteradas e distúrbios do vínculo entre mãe e filho.

                Nas últimas quatro décadas, a população apresenta um maior acesso aos alimentos, tanto porque são produzidos em maior escala quanto pelo melhor poder aquisitivo daquela, sendo que a urbanização e a industrialização geram modificações dos hábitos alimentares, favorecendo ao sedentarismo. Houve aumento do consumo de alimentos ricos em gorduras, se comparados àqueles ricos em carboidratos complexos, em razão de campanhas publicitárias e por serem de baixo custo e de fácil preparo.

    A obesidade infantil, avaliada pelo IMC, é considerada um fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares na vida adulta. Também pelo IMC, observou-se aumento da incidência de diabetes tipo II em crianças e adolescentes em vários países. No Brasil, o perfil lipídico apresenta-se alterado em decorrência dos altos valores de IMC, e os próprios profissionais da saúde  verificam que os pacientes obesos apresentam aumento na prevalência de hiperlipidemia, hipertensão e diabetes. Com relação à obesidade infantil, verifica-se, além do aumento da prevalência de casos de diabetes tipo II, aumento da pressão arterial. O excesso de peso na infância está associado à resistência  insulínica, perfil lipídico alterado e elevada pressão sanguínea.

     

    Tratamento da obesidade infantil

                                                           

    O tratamento da obesidade infantil determinado por metas favorece a criança e os pais a persistirem no novo estilo de vida, sendo que essas metas podem ser estabelecidas com a diminuição da ingestão de gordura, aumento no consumo de fibras, redução moderada da ingestão de calorias, aumento da atividade física, apoio e incentivo familiar, assim como terapia de comportamento desejado com  relação à perda de peso.

    Os pais têm grande importância no tratamento da obesidade infantil, pois  são responsáveis pelas mudanças alimentares (as quais podem ser benéficas para os próprios pais) e pelo estímulo à atividade física, favorecendo a redução do excesso de peso e dos fatores de risco de doenças cardiovasculares, associadas à hipertensão, diabetes e dislipidemias.

     

    Para maiores informações consultar Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento - RBONE (www.rbone.com.br).

     

    Prof. Dr. Francisco Navarro

    Coordenador do curso de Obesidade e Emagrecimento da Universidade Gama Filho - UGF

     

     

     

    Tratamento nutricional na obesidade infantil

     

     

    Uma Visão do Nutricionista

     

     

    O tratamento da obesidade considera os aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais associados à doença. O principal objetivo do tratamento não é a redução apenas de peso, mas também do fator de risco de desenvolvimento de outras doenças, tais como: aterosclerose, hipertensão, resistência à insulina, diabetes mellitus e problemas psicossociais na infância1. O tratamento deve envolver os pais e família, já que novos estudos comprovam a forte influência do estilo de vida, que reflete o sedentarismo e maus hábitos alimentares e culturais, no desenvolvimento da obesidade infantil 2-3.

    A redução da prática de atividade física e o aumento da ingestão de alimentos energéticos, industrializados e do tamanho das porções consumidas, associados à redução de fibras e péssima qualidade nutricional da dieta alimentar, são considerados fatores primários desencadeantes do desenvolvimento e prevalência da obesidade infantil 4-7. Outros fatores importante são a ingestão aumentada de alimentos fast-food e a extinção das refeições em família8.

    Qual é o melhor tratamento nutricional? Cientificamente, não existe um consenso, mas muitas pesquisam procuram evidências para o emagrecimento e promoção da mudança de hábitos nas crianças e familiares.

    Entre as diferentes propostas, existem dietas pobres em carboidrato, ricas em proteína, de baixa caloria, ricas em cálcio, com o uso de suplementos ou medicamentos anorexígenos, dieta dos pontos e muitos modismos. Com relação a isso, deve-se ter atenção às evidências científicas e conseqüências biológicas de intervenções radicais e indevidas em crianças.

    Colapinto e colaboradores 9 realizaram uma pesquisa e avaliaram o tamanho das porções de alguns alimentos consumidos por crianças. Foi encontrada correlação entre alimentos hipercalóricos e porções maiores de batata frita, batata tipo chips e carnes, enquanto que a ingestão de vegetais foi inferior ao recomendado, resultando em um maior risco no estado nutricional e de saúde.

    Um estudo realizado com 18 crianças obesas de 6 a 12 anos de idade verificou o efeito de uma dieta restrita em carboidrato no perfil lipídico, com proteínas e calorias livres. Foi observada uma significativa diminuição do colesterol total e triglicérides após dez semanas de tratamento, sugerindo, assim, a diminuição dos fatores de risco cardiovasculares em crianças obesas. Mas devem ser realizados estudos de longo prazo para comprovar estes dados 10.

    Outros estudos, no entanto, evidenciam que não existe correlação significativa ou benéfica na intervenção da dieta pobre em carboidrato e rica em gordura, pois deve ser considerada a cetose, o que aumentaria a utilização de proteínas como fonte de energia. O grande benefício desta dieta parece ser a redução da insulina, o que acarretaria menor aproveitamento dos ácidos graxos no armazenamento de gorduras e menor risco de desenvolvimento do diabetes 11.

    O objetivo geral do tratamento nutricional deve ter ênfase na educação nutricional e mudança na escolha dos alimentos consumidos. Qualquer alimento é permitido, mas com moderação.

    Existem algumas orientações práticas:

    1.      Lembre-se que crianças não devem seguir dietas radicais.

    2.      Substitua a farinha de trigo refinada e branca por integral. Pode ser farelo de trigo, aveia ou quinua.

    3.      Substitua o açúcar refinado branco por açúcar mascavo, demerara ou cristal.

    4.      Não utilize adoçante e produtos diet sem supervisão nutricional. A não ser que a criança seja diabética. Neste caso, prefira adoçantes à base de stévia ou misturados com stévia.

    5.      A família deve ter os mesmos hábitos que a criança. Portanto, todos ingerem os mesmos alimentos reforçando positivamente a mudança na escolha alimentar.

    6.      Substitua lanches prontos e bolachas recheadas por bolos integrais caseiros simples (de aveia, cenoura com aveia e quinua, maçã ou banana, ou de castanha com raspas de chocolate).

    7.      Opte por embalagens individuais. Atenção ao maior custo financeiro.

    8.      Defina as porções de cada um. Um adulto ingere maior quantidade que uma criança.

    9.      Faça lista de compras de acordo com a dieta e não compre alimentos engordativos ou com calorias vazias (sem valor nutricional). Fica muito difícil negar a comida se temos fácil acesso.

    10.   Elabore refeições com frutas picadas ou misturadas com iogurte natural ou com apenas uma bola pequena de sorvete. A criança aceita comer frutas mais facilmente se for prático, ou seja, já estiver picada ou descascada.

    11.   Faça preparações cozidas, assadas ou grelhadas.

    12.   Quanto à preparações com molho, utilize o falso creme de leite, molho de tomate caseiro ou iogurte.

    13.   Cozinhe menos comida: a quantidade suficiente para todos, sem sobras.

    14.   Substitua refrigerantes, mesmo zero ou diet, por sucos naturais, de soja ou pasteurizados à base de frutas ou chás.

    15.   Leia rótulos e considere as calorias.

    16.   Procure um nutricionista para elaborar um plano alimentar e auxiliar no desenvolvimento de receitas saudáveis.

     

    Cada família deve aprender sobre alimentação, melhorar a escolha de alimentos mais nutritivos e praticar uma gastronomia prazerosa e saudável. A criança reproduz o que aprende. A melhor intervenção é aquela que considera a alimentação usual desta criança e propõe adaptação gradativa e criativa. A responsabilidade deve ser aprendida sem caracterizar castigo ou diferença. É um trabalho contínuo, e, por isso, propõe-se um tratamento e não apenas uma consulta de nutrição.

     

     

     

    Vanessa Fernandes Coutinho

    Nutricionista; especialista em Nutrição Esportiva (CEMAFE – EPM); mestre e dutora em Ciência dos Alimentos (USP/SP); coordenadora dos cursos de pós-graduação em Nutrição Clínica e em Pediatria da UGF; e diretora da Nutriatuação - Consultoria e Atendimento em Nutrição

     

    Tatiane Vanessa de Oliveira (Oliveira TV)

    Nutricionista; especialista em Nutrição Clínica (UGF); doutoranda em Cardiologia – InCor-FMUSP

     

     

    Referências

     

     

    1.    World Health Organization. Report of a WHO Consultation on Obesity. Preventing and managing the global epidemic. WHO, Geneve, 1998.

     

    2.    Zwiauer KF . Prevention and treatment of overweight and obesity in children. Eur. J. Pediatr  2000 ; 159; (Suppl 1):S56 – S68 .

     

    3.    Strauss RS. Childhood obesity. Pediatr Clin North Am 2002;49:175- 201.

     

    4.    Anderson RE, Crespo CJ, Bartlett SJ, Cheskin LJ, Pratt M. Relationship of physical activity and television watching with body weight and level of fatness among children: Results from the Third National JAMA. 1998;279:938-942.

     

    5.    Raine KD. Overweight and obesity in Canada: A population health perspective. Ottawa, Canada: Canadian Institute for Health Information; 2004.

     

    6.    Rolls BJ. Increasing the portion size of a sandwich increases energy intake. J Am Diet Assoc 2004;104:367-372.

     

    7.    Ledikwe JH, Ello-Martin JA, Rolls BJ. Portion sizes and the obesity epidemic. J Nutr 2005;135:905-909.

     

    8.     Veugelers PJ, Fitzgerald AL. Prevalence of and risk factors for childhood overweight and obesity. CMAJ 2005;173:607-613.

     

    9.     Colapinto CK, Fitzgerald A, Taper J, Veugelers PJ. Children’s Preference for Large Portions:Prevalence, Determinants, and Consequences. Am Diet Assoc 2007;107:1183-1190.

     

    10.  Dunlap BS, Bailes JR Jr. Unlimited energy, restricted carbohydrate diet improves lipid parameters in obese children. Metab Syndr Relat Disord. 2008;6(1):32-6.

     

    11. Demol S, Yackobovitch-Gavan M, Shalitin S, Nagelberg N, Gillon-Keren M, Phillip M. Low-carbohydrate (low & high-fat) versus high-carbohydrate low-fat diets in the treatment of obesity in adolescents. Acta Paediatr  2008; Sep 29 [Epub ahead of print].

     

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