Tratamento nutricional na obesidade infantil
Uma Visão do Nutricionista
O tratamento da obesidade considera os aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais associados à doença. O principal objetivo do tratamento não é a redução apenas de peso, mas também do fator de risco de desenvolvimento de outras doenças, tais como: aterosclerose, hipertensão, resistência à insulina, diabetes mellitus e problemas psicossociais na infância1. O tratamento deve envolver os pais e família, já que novos estudos comprovam a forte influência do estilo de vida, que reflete o sedentarismo e maus hábitos alimentares e culturais, no desenvolvimento da obesidade infantil 2-3.
A redução da prática de atividade física e o aumento da ingestão de alimentos energéticos, industrializados e do tamanho das porções consumidas, associados à redução de fibras e péssima qualidade nutricional da dieta alimentar, são considerados fatores primários desencadeantes do desenvolvimento e prevalência da obesidade infantil 4-7. Outros fatores importante são a ingestão aumentada de alimentos fast-food e a extinção das refeições em família8.
Qual é o melhor tratamento nutricional? Cientificamente, não existe um consenso, mas muitas pesquisam procuram evidências para o emagrecimento e promoção da mudança de hábitos nas crianças e familiares.
Entre as diferentes propostas, existem dietas pobres em carboidrato, ricas em proteína, de baixa caloria, ricas em cálcio, com o uso de suplementos ou medicamentos anorexígenos, dieta dos pontos e muitos modismos. Com relação a isso, deve-se ter atenção às evidências científicas e conseqüências biológicas de intervenções radicais e indevidas em crianças.
Colapinto e colaboradores 9 realizaram uma pesquisa e avaliaram o tamanho das porções de alguns alimentos consumidos por crianças. Foi encontrada correlação entre alimentos hipercalóricos e porções maiores de batata frita, batata tipo chips e carnes, enquanto que a ingestão de vegetais foi inferior ao recomendado, resultando em um maior risco no estado nutricional e de saúde.
Um estudo realizado com 18 crianças obesas de 6 a 12 anos de idade verificou o efeito de uma dieta restrita em carboidrato no perfil lipídico, com proteínas e calorias livres. Foi observada uma significativa diminuição do colesterol total e triglicérides após dez semanas de tratamento, sugerindo, assim, a diminuição dos fatores de risco cardiovasculares em crianças obesas. Mas devem ser realizados estudos de longo prazo para comprovar estes dados 10.
Outros estudos, no entanto, evidenciam que não existe correlação significativa ou benéfica na intervenção da dieta pobre em carboidrato e rica em gordura, pois deve ser considerada a cetose, o que aumentaria a utilização de proteínas como fonte de energia. O grande benefício desta dieta parece ser a redução da insulina, o que acarretaria menor aproveitamento dos ácidos graxos no armazenamento de gorduras e menor risco de desenvolvimento do diabetes 11.
O objetivo geral do tratamento nutricional deve ter ênfase na educação nutricional e mudança na escolha dos alimentos consumidos. Qualquer alimento é permitido, mas com moderação.
Existem algumas orientações práticas:
1. Lembre-se que crianças não devem seguir dietas radicais.
2. Substitua a farinha de trigo refinada e branca por integral. Pode ser farelo de trigo, aveia ou quinua.
3. Substitua o açúcar refinado branco por açúcar mascavo, demerara ou cristal.
4. Não utilize adoçante e produtos diet sem supervisão nutricional. A não ser que a criança seja diabética. Neste caso, prefira adoçantes à base de stévia ou misturados com stévia.
5. A família deve ter os mesmos hábitos que a criança. Portanto, todos ingerem os mesmos alimentos reforçando positivamente a mudança na escolha alimentar.
6. Substitua lanches prontos e bolachas recheadas por bolos integrais caseiros simples (de aveia, cenoura com aveia e quinua, maçã ou banana, ou de castanha com raspas de chocolate).
7. Opte por embalagens individuais. Atenção ao maior custo financeiro.
8. Defina as porções de cada um. Um adulto ingere maior quantidade que uma criança.
9. Faça lista de compras de acordo com a dieta e não compre alimentos engordativos ou com calorias vazias (sem valor nutricional). Fica muito difícil negar a comida se temos fácil acesso.
10. Elabore refeições com frutas picadas ou misturadas com iogurte natural ou com apenas uma bola pequena de sorvete. A criança aceita comer frutas mais facilmente se for prático, ou seja, já estiver picada ou descascada.
11. Faça preparações cozidas, assadas ou grelhadas.
12. Quanto à preparações com molho, utilize o falso creme de leite, molho de tomate caseiro ou iogurte.
13. Cozinhe menos comida: a quantidade suficiente para todos, sem sobras.
14. Substitua refrigerantes, mesmo zero ou diet, por sucos naturais, de soja ou pasteurizados à base de frutas ou chás.
15. Leia rótulos e considere as calorias.
16. Procure um nutricionista para elaborar um plano alimentar e auxiliar no desenvolvimento de receitas saudáveis.
Cada família deve aprender sobre alimentação, melhorar a escolha de alimentos mais nutritivos e praticar uma gastronomia prazerosa e saudável. A criança reproduz o que aprende. A melhor intervenção é aquela que considera a alimentação usual desta criança e propõe adaptação gradativa e criativa. A responsabilidade deve ser aprendida sem caracterizar castigo ou diferença. É um trabalho contínuo, e, por isso, propõe-se um tratamento e não apenas uma consulta de nutrição.
Vanessa Fernandes Coutinho
Nutricionista; especialista em Nutrição Esportiva (CEMAFE – EPM); mestre e dutora em Ciência dos Alimentos (USP/SP); coordenadora dos cursos de pós-graduação em Nutrição Clínica e em Pediatria da UGF; e diretora da Nutriatuação - Consultoria e Atendimento em Nutrição
Tatiane Vanessa de Oliveira (Oliveira TV)
Nutricionista; especialista em Nutrição Clínica (UGF); doutoranda em Cardiologia – InCor-FMUSP
Referências
1. World Health Organization. Report of a WHO Consultation on Obesity. Preventing and managing the global epidemic. WHO, Geneve, 1998.
2. Zwiauer KF . Prevention and treatment of overweight and obesity in children. Eur. J. Pediatr 2000 ; 159; (Suppl 1):S56 – S68 .
3. Strauss RS. Childhood obesity. Pediatr Clin North Am 2002;49:175- 201.
4. Anderson RE, Crespo CJ, Bartlett SJ, Cheskin LJ, Pratt M. Relationship of physical activity and television watching with body weight and level of fatness among children: Results from the Third National JAMA. 1998;279:938-942.
5. Raine KD. Overweight and obesity in Canada: A population health perspective. Ottawa, Canada: Canadian Institute for Health Information; 2004.
6. Rolls BJ. Increasing the portion size of a sandwich increases energy intake. J Am Diet Assoc 2004;104:367-372.
7. Ledikwe JH, Ello-Martin JA, Rolls BJ. Portion sizes and the obesity epidemic. J Nutr 2005;135:905-909.
8. Veugelers PJ, Fitzgerald AL. Prevalence of and risk factors for childhood overweight and obesity. CMAJ 2005;173:607-613.
9. Colapinto CK, Fitzgerald A, Taper J, Veugelers PJ. Children’s Preference for Large Portions:Prevalence, Determinants, and Consequences. Am Diet Assoc 2007;107:1183-1190.
10. Dunlap BS, Bailes JR Jr. Unlimited energy, restricted carbohydrate diet improves lipid parameters in obese children. Metab Syndr Relat Disord. 2008;6(1):32-6.
11. Demol S, Yackobovitch-Gavan M, Shalitin S, Nagelberg N, Gillon-Keren M, Phillip M. Low-carbohydrate (low & high-fat) versus high-carbohydrate low-fat diets in the treatment of obesity in adolescents. Acta Paediatr 2008; Sep 29 [Epub ahead of print].