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  O MÚSICO DE SOPRO E A ATIVIDADE FÍSICA  
  Gustavo de Rezende Corrêa  

Revista On-Line - Ano 5 / nº 8

O Músico de Sopro e a atividade Física

 

Gustavo de Rezende Corrêa

 

Professor de Educação Física, graduado pela UFRJ, Mestre em Neuroimunologia formado pela UFF e Doutorando em Neuroimunologia. Programa de Neuroimunologia –Instituto de Biologia - Universidade Federal Fluminense – Niterói – Rio de Janeiro.

 

 

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Resumo:

            O sedentarismo, o alcoolismo, a má alimentação, o mal dormir, o tabagismo e o uso de drogas, participam de maneira atuante na vida do músico de sopro. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da atividade física controlada na performance físico-técnica desse profissional. Participaram deste estudo 50 músicos, 40 homens e 10 mulheres, de 18 a 65 anos, que foram submetidos a um programa de exercícios voltado para a terceira idade. Ao final de três meses foi possível perceber uma mudança significativa no condicionamento físico-técnico dos sujeitos.

 

Palavras-chave: músicos, yoga, treinamento.

 

Abstract:

            The sedentarism, alcoholism, bad alimentation, bad sleeping, tobacco, drugs, are regular in this professional life. The aim of this work was evaluate the effects of controlled physical activities in physical and technical performance of the wind musician. Took part in this work 50 subjects, 40 men and 10 women, between 18 and 65 years old, that was submitted to a third age exercise program. Tree months later, was possible to note a significant change on subjects physical and technical condition.

 

Key-words: musicians, yoga, trainning.


Introdução:

Pesquisas realizadas entre os músicos de instrumento de sopro, mostraram que seu estilo de vida provoca um encurtamento de suas carreiras, devido ao uso do tabaco, álcool, drogas, má alimentação e sedentarismo (1).

            O tabaco causa câncer, arteriosclerose, hipertensão e diminuição na capacidade respiratória, fato que obviamente é muito prejudicial à performance desse profissional. O álcool pode causar hipertensão, obesidade, derrame e depressão. O sedentarismo tem como conseqüência a hipertensão, obesidade, diabetes, aumento dos níveis de colesterol. A má alimentação, proporcionada pela “fast food”, decorre na obesidade, no aumento dos níveis de colesterol e na hipertensão (2).

            Com a prática da atividade física moderada, podemos reduzir esses efeitos dos hábitos dos músicos, pois já foi mostrado na literatura que o exercício físico é capaz de controlar os níveis de colesterol (3;4;5), de reduzir a depressão (6), a hipertensão (7), a arteriosclerose (5), pode auxiliar o sistema imune (8), diminui o índice de obesidade (5;9;10;11).

            O Yoga

            O Hatha-yoga é a parte de treinamento físico da doutrina do yoga, que tem origem na sociedade hindu, é considerada por parte do Ocidente como apenas uma ginástica, mas é na verdade um sistema de perspectiva sócio-religiosa que traz melhoria postural e de estresse utilizando disciplinas do corpo e da mente (12), combina exercícios de correção postural e controle da respiração e relaxamento (13).

            Garfinkel e colaboradores, em 1994 (14), mostraram que o yoga pode ser efetivo no controle de sintomas de desordem postural. Também tem efeito no controle da pressão sanguínea, na freqüência cardíaca e do peso corporal (15;16).

            Raju e associados (17), sugerem que esta doutrina traz benefícios cardiopulmonares, podendo causar um aumento no volume expiratório (16;18;19) e na capacidade vital (20).

            Em 2005, Pilkington (21) e colaboradores mostraram que as diferentes formas do yoga são eficientes no tratamento de depressão. A prática orientada e controlada dessa atividade tem influência significante na saúde física e mental, aliviando o estresse, que pode ser causado pela má qualidade de vida do músico de sopro profissional (22).

            A prática do yoga combinada ao tratamento do alcoolismo acelera o processo de reabilitação, provocando mudanças nos níveis de satisfação e estabilidade emocional. Tem efeito também no tratamento da diabetes, promovendo uma significativa redução nos níveis de glicose (18;19).

            A Respiração

            Para que um músico de sopro tenha bom rendimento, deve desenvolver seus Volumes Corrente e Reserva e sua Capacidade Vital, pois assim tornará mais simples a prática de seu instrumento. Em um estio de vida não saudável, tais capacidades se tornam significativamente inadequadas.


Métodos:

            Grupos:

            50 músicos de diferentes instrumentos de sopro, profissionais com registro na Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), sendo 40 homens e 10 mulheres, de idades entre 18 e 65 anos, foram divididos em dois grupos de 25 sujeitos (20 homens e 5 mulheres). O primeiro grupo se manteve em suas atividades normais e o segundo foi submetido ao treinamento.

            Avaliação Física:

            Os sujeitos foram avaliados fisicamente pelos protocolos de Cstrand Ryhming, de Wingate e Pollock 3d. Responderam aos questionários de risco cardiovascular PAR-Q e de estratificação de atividade física habitual Baeke (23). Para a realização destes testes foram utilizados: monitor cardíaco Polar A1, bicicleta ergométrica Biocycle Plus (Moviment), Kit de Avaliação (Sunny) e cronômetro (Timex).

            Avaliação Técnica

            Foi realizada com uso dos testes aplicados pela OMB, que consistem em analisar a capacidade básica do sujeito com o instrumento, e o teste da Escola Americana de Música, no qual é possível analisar o condicionamento técnico do musico, no que diz respeito a notas de alcance, execução de diferentes escalas, intervalos e trechos musicais de diferentes níveis técnicos.

            Exercícios Físicos

            Foi utilizado um programa de exercícios de yoga proposto para a terceira idade pela Academia Hermógenes de Yoga (24), com o objetivo de aplicar uma atividade em que todos os sujeitos fossem capazes de realizar, independente do condicionamento físico inicial.

Controle dos hábitos

            Os sujeitos do grupo submetido ao treinamento foram instruídos a dormir de 7 a 9 horas por noite e a fazer refeições balanceadas no lugar da “fast food”.


Resultados

            Após a avaliação dos sujeitos, estes foram classificados por sua performance técnica e condicionamento físico, o que permitiu fazer a definição dos dois grupos, onde um foi o controle e o outro foi submetido ao treinamento.

            No que diz respeito à classificação técnica dos grupos controle e de treino, os sujeitos foram graduados como: baixo rendimento, bom rendimento e alto rendimento. Nesta classificação foi considerado de bom rendimento o músico que executou, sem esforço ou prejuízo técnico, elementos básicos de seu instrumento, de baixo rendimento aqueles que não conseguiram executar tais elementos, e de alto rendimento os que executaram elementos de maior dificuldade técnica após a execução dos elementos básicos. Como resultado pôde-se perceber que a maioria dos sujeitos dos dois grupos foi classificada como de baixo rendimento como mostra a figura 1.

            A capacitação física foi classificada como ruim, boa e excelente. A classificação foi realizada de acordo com o protocolo Cstrand Ryhming. Os resultados revelam que também nesta avaliação a maioria dos sujeitos se encontrava na categoria ruim como é indicado na figura 2.

            Após três meses do inicio do estudo, no qual o grupo controle permaneceu com suas atividades normais e o grupo de treino foi submetido ao treinamento, os sujeitos foram reavaliados para que fosse possível verificar se ocorreram ou não mudanças físico-técnicas nos sujeitos treinados. A figura 3 mostra que houve uma mudança significativa na qualidade técnica do grupo de treino.

            Para a verificação dos efeitos do treinamento físico, foi realizada a reavaliação física de ambos os grupos, onde se pode ver também um aumento no condicionamento físico do grupo de treino (Figura 4).

            Durante todo o período do estudo, os músicos não relataram ter tido nenhum prejuízo em sua performance técnica ou física.


Discussão:

            Após a avaliação inicial dos sujeitos pôde-se perceber que a maioria se encontrava nas classificações de baixo rendimento técnico e de capacitação física ruim, fato este que corrobora os dados de Carrol e Smith, 1995 (2) que mostram que as condições em que as pessoas mantêm suas vidas as leva a uma debilitação física e emocional, e que pode acarretar a baixa da imunidade, ocasionando o aumento na incidência de doenças.

            Passados três meses, os grupos foram reavaliados sendo percebida uma melhora significativa da capacidade técnica dos sujeitos treinados como propõe a literatura (16;18;19). Fortalecendo ainda mais esta teoria, no grupo controle, não foram observadas mudanças significativas nessa capacidade no decorrer do estudo.

            Visto que a capacidade física do sujeito submetido ao treino também sofreu uma significativa melhora, ocorrendo casos em que ficou evidente a diminuição dos níveis de sobrepeso (dados não apresentados), essa teoria é também é proposta na literatura (5;9;10;11;15;16). Com o aumento das capacidades físico-técnicas sofrido pelo grupo de treino, os sujeitos submetidos ao treinamento relataram, ao final do estudo, que aumentaram seus compromissos profissionais, por terem mais disposição e conforto físico paras suportar as duras jornadas de trabalho e que estavam sendo mais procurados por terem aumentado suas capacidades técnicas.

            Pode-se concluir ao final deste estudo, que a atividade física controlada, por um período mínimo de três meses, é capaz de melhorar o condicionamento físico do músico de instrumento de sopro, a ponto de aumentar significativamente sua performance físico-técnica. É importante lembrar que o profissional não tem nenhum prejuízo durante o treinamento, não sendo necessário interromper suas atividades profissionais para se condicionar.


Agradecimentos:

            Agradeço ao professor Sgt. CBMERJ Aldemiro Oliveira, da Escola Americana de Música, ao professor César Gomes do Couto, da Escola de Educação Física e Desportos (UFRJ) e aos músicos profissionais que participaram deste estudo, pelo apoio e orientação.


Referências Bibliográficas:

1 - Corrêa GR. Programa de Treinamento para Músicos de Instrumento de Sopro. Rio de Janeiro. UFRJ, 2002.

2 - Carroll S, Smith T. Guia da Vida Saudável. Rio de Janeiro: O Globo, 1995.

3 - Prado ES, Dantas EHM. Efeitos dos exercícios físicos aeróbicos e de força nas lipoproteínas HDL, LDLe lipoproteína(a). Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo 2002, 79, n. 4:429-433.

4 - Leaf DA. The effect of physical exercise on reverse cholesterol transport. Metabolism 2003, 52, n.8:950-957.

5 - Aguiló A, Tauler P, Guix MP, Villa G, Córdova A, Tur JA, et al. Effect of exercise intensity and training on antioxidants and colesterol profile in cyclists. Journal of Nutritional Biochemistry 2003;14:319-325.

6 - Patten CA, Vickers KS, Martin JE, Willians CD. Exercise interventions for smokers with a history of alcoholism: Exercise adherence rates and effect of depression on adherence. Addictive Behaviors 2003, 28:657-667.

7 - Cowen VS, Adams TB. Physical and perceptual benefits of yoga asana practice: results of a pilot study. Journal of Bodywork and Movement Therapies 2005, 9, n.3:211-219.

8 - Pedersen BK, Hoffman-Goetz L. Exercise and immune system: regulation, integration, and adaptation. Physiological Reviews 2000, 80, n. 3.

9 - Kyle US, Morabia A, Schultz Y, Pichard C. Sedentarism affects body fat mass index and fat-free mass index in adults aged 18 to 98 years. Nutrition 2004, 20, n. 3:255-260.

10 - Pedrosa RG, Tirapegui J, Rogero MM, Castro IA, Pires ISO, Salgado MM, et al. Assessment of the nutrition status of rats submitted to food restriction and/or to physical exercise. Nutrition Research 2004, 24:923-934.

11 - Kretschmer B, Schelling P, Beier N, Liebscher C, Treutel S, Krüger N, et al. Modulatory role of food, feeding regime and physical exercise on body weight and insulin resistance. Life Sciences 2005, 76:1553-1573.

12 - Barroso M. As iogas como cultura alternativa. Motriz 1999;5, n.2:189-193.

13 - Villien F, Yu M, Barthélémy P, Jammes Y. Training to yoga respiration selectively increases respiratory sensation in healthy man. Respiratory Physiology & Neurobiology 2005, 146:85-96.

14 - Garfinkel MS, Schumacher Jr HR, Husain A. Evaluation of a yoga based regimen for treatment of osteoarthritis of the hands. Journal of Rheumatology 1994, 21, n.12:2341-3.

15 - Murugesan R, Govindarajulu N, Bera T. Effect of selected yogic practices on the management of hypertension. Indian Journal of Physiology and Pharmacology 2000, 44, n.2:207-210.

16 - Telles S, Nagarathna R, Nagendra HR. Physiological changes in sports teachers following 3 months of training in yoga. Indian Journal of Medical Sciences 1993, 47,n.10:235-240.

17 - Raju PS, Prasad A, Venkata RY. Influence of intensive yoga training on physiological changes in 6 adult women: a case report. The Journal of Alternative and Complementary Medicine 1997, 3, n. 3:291-5.

18 - González VL, Waterlamd A. Efectos del hatha-yoga sobre la salud. Parte I. Revista Cubana de Medicina General Integrada 1998, 14, n. 4:393-397.

19 - González VL, Waterland A. Efectos del hatha-yoga sobre la salud. Parte II. Revista Cubana de Medicina General Integrada 1998, 14, n. 5:499-503.

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21 - Pilkington K, Kirkwood G, Rampes H, Richardsin J. Yoga for depression: The research evidence. Journal of Affective Disorders, 2005.

22 - Çorub B, Ayele H, Pugh M, Mulligan T. Does religious activity improve health outcome? A critical review of the recent literature. Explore 2005, 1, n. 3:186-191.

23 - Pompeu FA. Manual de Cineantropometria. Rio de Janeiro: Sprint, 2004.

24 - Hermógenes. Autoperfeição com Hatha Yoga. Rio de Janeiro: Nova Era, 2005.


Legendas:

Figura 1: Rendimento Técnico Inicial: Representação da classificação do rendimento técnico inicial dos sujeitos do grupo controle de do grupo submetido ao treinamento (grupo de treino). Número de sujeitos em cada grupo = 25. O gráfico mostra que os dois grupos tinham características iniciais semelhantes, com a maior parte dos integrantes classificados como de baixo rendimento.

 

Figura 2: Capacidade Física Inicial: Representação da capacitação física inicial dos sujeitos do grupo controle de do grupo submetido ao treinamento (grupo de treino). Número de sujeitos em cada grupo = 25. O gráfico mostra que os dois grupos tinham características iniciais semelhantes, com a maior parte dos integrantes classificados como de condicionamento físico ruim.

 

Figura 3: Rendimento Técnico após Treino: Representação da classificação do rendimento técnico dos sujeitos do grupo controle de do grupo submetido ao treinamento (grupo de treino) após três meses de treinamento. Número de sujeitos em cada grupo = 25. O gráfico mostra uma diferença significativa entre os dois grupos, tendo o grupo controle a maior parte de seus integrantes classificados como de baixo rendimento e o grupo de treino com a maior parte de seus integrantes entre bom e alto rendimento.

 

Figura 4: Capacidade Física após Treino: Representação da capacitação física dos sujeitos do grupo controle de do grupo submetido ao treinamento (grupo de treino) após três meses de treinamento. Número de sujeitos em cada grupo = 25. O gráfico mostra uma diferença significativa entre os dois grupos, tendo o grupo controle a maior parte de seus integrantes classificados como de condicionamento físico ruim e o grupo de treino com a maior parte de seus integrantes entre condicionamento físico bom e excelente.

 


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